Exclusivo: o que diz o processo do caso do helicóptero dos
Perrellas, tratado na Justiça de “Helicoca”
por : Joaquim de Carvalho
O repórter Joaquim de Carvalho está mergulhado na história da apreensão de 445 quilos de pasta de cocaína num helicóptero que pertence à família Perrella, um dos escândalos mais rumorosos do ano passado, que está longe de ser explicado. É o segundo projeto de crowdfunding do DCM, totalmente financiado pelos leitores.
Esta é só a primeira reportagem de uma série especial. Outras virão, bem como um documentário. A matéria é fruto da apuração de Joaquim em Vitória e Afonso Cláudio, no Espírito Santo. Ele está agora a caminho de Minas Gerais.
O senador José Perrella de Oliveira Costa, o juiz federal Marcus Vinícius Figueiredo de Oliveira Costa e o procurador da República Júlio de Castilhos Oliveira Costa têm em comum não apenas o sobrenome.
O juiz e o procurador atuam no processo número 0012299-92.2013.4.02.5001, sobre tráfico internacional de drogas, em que o Oliveira Costa senador, mais conhecido como Zezé, é o sujeito oculto.
Eu fui a Vitória e a Afonso Cláudio, no Espírito Santo, conversei com pessoas envolvidas na investigação, advogados e testemunhas. Também tive acesso ao processo e a um procedimento sigiloso do Ministério Público Federal.
Era necessário contar a história da segunda maior apreensão de drogas no estado, onde o caso é tratado como um dos maiores escândalos da história.
No processo, não há prova de que Perrella esteja envolvido na operação criminosa que pretendia colocar nas ruas da Europa 445 quilos de cocaína produzida em Medellín, na Colômbia.
Mas, embora seja mencionado não mais do que uma dezena de vezes nas 1162 páginas da ação penal, o nome dele paira como um fantasma sobre todo o processo.
Tanto é assim que, entre os servidores da Justiça Federal, a ação foi apelidada de “Helicoca”, referência ao helicóptero Robinson, modelo 66, registrado em nome de uma empresa da família Perrella e que foi usado pela quadrilha no transporte da cocaína.
Uma das poucas vezes em que José Perrella aparece é na transcrição de uma troca de mensagens entre o piloto da família Perrella, Rogério Almeida Antunes, e o primo dele, chamado Éder, que mora em Minas Gerais.
“Man, eu quase derrubei a máquina do Zezé”, escreveu ele em seu Iphone, usando o aplicativo Whatsapp.
Rogério conta que estava transportando cocaína, num peso superior à capacidade do helicóptero. “Eu nunca passei um apuro daquele”, digita. “Nossa!”, responde o primo.
“Eu tava vendo a máquina cair. Suei de um jeito que eu nunca vi na vida, molhei a camiseta”, comenta Rogério.“Imagino”, responde Éder. “Tava com peso demais e o vento tava de cauda”, continua Rogério. “Mas deu tudo certo”, finaliza. “Que bom”, diz o primo.
Rogério, o piloto: “Man, eu quase derrubei a máquina do Zezé”
Nos três dias que durou a operação de busca e entrega da cocaína, Éder virou um interlocutor frequente de Rogério. Com base nos registros no GPS, é possível saber que o voo com o helicóptero de Perrella começou na sexta-feira, dia 22 de novembro, por volta das 14 horas.
De Belo Horizonte, o helicóptero voou para o Campo de Marte, em São Paulo, onde pousou aproximadamente às 17 horas. No aeroporto paulistano, embarcou Alexandre José de Oliveira Júnior, proprietário de uma escola de formação de pilotos no Campo de Marte e, segundo a investigação da Polícia Federal, responsável por atrair Rogério para a quadrilha.
Retomada a viagem, o helicóptero voou até Avaré. Rogério e Alexandre deixaram o helicóptero no aeroporto e foram para um hotel no centro da cidade, onde dormiram.
Na manhã seguinte, voaram até Porecatu, no interior do Paraná, onde o helicóptero foi abastecido, e daí seguiram até Pedro Juan Caballero, no Paraguai, em uma fazenda bem próxima da divisa com o Brasil.
O pouso em Pedro Juan Caballero ocorreu por volta das 9 horas, onde dois homens, um deles brasileiro, ajudaram a colocar os 445 quilos de cocaína no bagageiro e nos bancos do helicóptero.
No retorno ao Brasil, nova escala em Porecatu e depois pouso em uma fazenda em Santa Cruz do Rio Pardo, seguido de uma parada em Avaré e depois no município de Janiru, próximo de São Paulo.
Tantas paradas são justificadas pela necessidade de reabastecimento e também para esconder temporariamente a droga. Os dois evitavam parar em aeroportos regulares com cocaína a bordo.
De Jarinu, onde a droga ficou guardada, voaram até o Campo de Marte, estacionaram no hangar da escola de Alexandre e foram para um apartamento, onde pernoitaram. No dia seguinte, domingo, demoraram para decolar do Campo de Marte, em razão da chuva.
Na retomada da viagem, o destino é uma propriedade rural no município de Afonso Cláudio, no Espírito Santo.
No trajeto, fizeram duas paradas, no interior de Minas Gerais: uma em Sabarazinho e outra em Divinópolis, bem perto da sede das empresas da família Perrella, em Pará de Minas. Pela investigação, não fica claro onde pegaram de volta a droga deixada em Jarinu.
O voo estava atrasado quando chegou a Afonso Cláudio. Era quase noite. No local, aguardavam o empresário carioca Robson Ferreira Dias e o jardineiro Everaldo Lopes Souza.
No momento em que descarregavam a cocaína, policiais federais e policiais militares do Espírito Santo, que estavam de campana, se aproximaram e deram voz de prisão, sem que nenhum dos quatro esboçasse qualquer reação.
Chamou a atenção dos policiais o fato de que nenhum dos traficantes estivesse armado. Afinal, estavam em poder de algo de muito valor. A pasta base da cocaína apreendida tinha um grau de pureza elevado: 95%. Na Europa, onde a droga seria distribuída, a cocaína considerada de boa qualidade tem 25% de pureza.
Portanto, os 445 quilos trazidos de Pedro Juan Caballero, a preço estimado de R$ 6 milhões, seriam transformados em quase duas toneladas de cocaína própria para o consumo. A preço de varejo na Europa, renderiam pelo menos R$ 50 milhões.
“É muito dinheiro envolvido para uma operação tão desprotegida. Por que não havia escolta em terra? Será que ninguém da quadrilha se preocupou com traficantes rivais?”, questiona um policial civil de São Paulo, com experiência em investigação de narcóticos.
O juiz federal Marcus Vinícius Figueiredo de Oliveira Costa também tem os seus questionamentos. “Por que a quadrilha usou o helicóptero do senador se o Alexandre, dono de uma escola de pilotos, tem cinco helicópteros e poderia fazer uso de qualquer um deles?”
O processo
Outra dúvida: Gustavo Perrella, deputado estadual e filho do senador Zezé Perrella, autorizou o voo até domingo à tarde, mas quando houve a prisão já era quase noite, e não há registro telefônico de que o piloto, empregado dele, tenha sido procurado.
Como o piloto faria desaparecer do helicóptero o forte cheiro da pasta base de cocaína, que ficou impregnado, é outro mistério. O que Rogério diria ao patrão, caso ele não soubesse do transporte de cocaína, a respeito do odor?
Estas são perguntas à espera de respostas. Há muitas outras, como admite o próprio juiz. Mas talvez algumas nunca apareçam. É que, na segunda-feira passada, 7 de abril, os únicos presos nesta operação foram colocados em liberdade, sem que fossem ouvidos.
A libertação foi uma reviravolta que surpreendeu até o mais otimista dos advogados. Todos eles já esperavam por uma condenação severa – no mínimo, oito anos, em regime fechado, já que tráfico internacional é considerado crime hediondo.
Os advogados e os réus estavam tensos quando o juiz adentrou a sala, com uma hora e dez minutos de atraso. Ele se desculpou pela demora. “Estava trabalhando na minha decisão. Vou mandar bater o alvará de soltura”, disse.
O mais experiente entre os advogados de defesa, Marco Antônio Gomes, admite: “Tive que fazer um esforço muito grande para não dar um grito e comemorar. O alvará de soltura é o ápice da advocacia criminal. Se você perguntar a um bom advogado criminalista se ele prefere ficar com a modelo mais bonita do mundo ou obter um alvará de soltura, com certeza ele escolherá o alvará de soltura.”
No caso do Espírito Santo, os advogados nem tiveram muito trabalho para chegar ao ápice. O principal motivo para a libertação dos presos foi uma denúncia do Ministério Público Federal, que tramitava em sigilo. O Ministério Público está, a rigor, no lado oposto da defesa.
Mas, neste caso, facilitou o trabalho dos advogados. Ou será que foi a Polícia Federal que meteu os pés pelas mãos? O fato é que o procurador da República Fernando Amorim Lavieri acusou a Polícia Federal de efetuar a prisão dos traficantes mediante uma prova ilícita.
Segundo ele, foi uma interceptação telefônica ilegal realizada em São Paulo que levou à descoberta de que a droga seria descarregada em Afonso Cláudio. Na denúncia do procurador, não é citado o telefone grampeado. A acusação, vaga e genérica, serviu, no entanto, como justificativa para o juiz colocar os traficantes em liberdade.
Diante da versão do procurador, cai por terra a história de que os bravos homens do serviço reservado da PM do Espírito Santo teriam feito a investigação que levou à descoberta da quadrilha.
É essa a explicação oficial: a PM paulista descobre que uma fazenda foi comprada a preço superfaturado e estaria sendo usada por pessoas suspeitas, e avisa a PF, que monta a operação no meio do mato, à espera da chegada da droga.
Ao decidir libertar os presos, o juiz Marcus Vinícius argumentou que já tinha se esgotado o prazo legal para a prisão sem julgamento. Na verdade, ainda faltavam alguns dias, mas esse prazo, a rigor, é elástico. Vale a interpretação do juiz.
“Eu entendo que a regra é a liberdade, prisão é exceção”, explicou Marcus Vinícius. “Não sou nenhum Torquemada. Julgo com base na lei”.
Ele remarcou o julgamento para outubro e admite que os acusados poderão fugir.
Para conceder o alvará de soltura, o magistrado não exigiu a apresentação de passaportes – “medida inócua” – nem fixou o pagamento de fiança, que poderia inibir a fuga. Mas talvez os acusados nem precisem fugir.
O juiz afirma que, na hipótese do Ministério Público sustentar a acusação de grampo ilegal, vai considerar nulo todo o processo.
O resultado prático é que os quatro acusados voltarão a ter ficha limpa e o helicóptero será devolvido para os Perrellas.
O delegado da Polícia Federal Leonardo Damasceno, que desde os primeiros dias depois da prisão em Cláudio Afonso inocenta publicamente os Perrellas, diz que a instituição não fez nada de errado.
Em nota, a Polícia Federal do Espírito Santo se manifestou assim a respeito do desfecho do processo:
“Independente da soltura dos presos, a retirada de circulação de quase meia tonelada atinge a todos os planos e programas de segurança e saúde públicas, deixando essa superintendência orgulhosa de sua atuação em conjunto com a Polícia Militar do Espírito Santo.”
José Perrella de Oliveira Costa não é parente do juiz Marcus Vinícius de Oliveira Costa nem do coordenador do Núcleo Criminal da Procuradoria da República no Espírito Santo, Júlio de Castilhos Oliveira Costa, mas em Vitória ou em Afonso Cláudio, onde o caso do helicóptero é tratado com indignação, as pessoas comuns dizem que a Justiça foi como uma “mãe” para os acusados e também para os suspeitos. O senador Perrella não foi sequer ouvido, nem para dizer que não tem nada a ver com o crime.
Como atesta a Polícia Federal, ele não é suspeito.
Os Perrellas: eles não são suspeitos, segundo a PF
Sobre o AutorJornalista, com passagem pela Veja, Jornal Nacional, entre outros. joaquim.gil@ig.com.br
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/exclusivo-o-que-diz-o-processo-do-caso-do-helicoptero-dos-perrellas-tratado-na-justica-de-helicoca/
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EXCLUSIVO – “Tenho medo de morrer”: o piloto do helicóptero dos Perrellas fala ao DCM
Postado em 26 abr 2014
Na terceira matéria do nosso especial sobre o “Helicoca”, trazemos uma entrevista exclusiva com o piloto da aeronave, Alexandre José de Oliveira Júnior.
O projeto “O Helicóptero de 50 Milhões de Reais” foi totalmente patrocinado pelos leitores através de crowdfunding.
Há um ano e meio, numa reportagem que mostrou São Paulo como a cidade com a maior frota de helicópteros do mundo, os repórteres da RedeTV! estiveram num hangar no Campo de Marte onde funcionava uma das escolas de pilotos que mais cresciam no Brasil.
Era a JR Helicópteros, de Alexandre José de Oliveira Júnior. Das quatro pessoas entrevistadas, três trabalhavam na escola.
Alexandre indicou quem daria entrevistas, mas não quis aparecer. Acompanhou tudo atrás das câmeras e se divertiu. No intervalo da gravação, pegou o microfone e se fez passar por repórter.
Eram os dias de glória da JR Helicópteros. Com uma política agressiva de captação de alunos, em dois anos a escola aumentou sua frota de dois para cinco helicópteros.
Um juiz da Justiça Federal, um delegado e um investigador da Polícia Civil faziam parte do grupo de instrutores da JR Helicópteros. Em quatro anos, Alexandre foi de estagiário da Agência Nacional da Aviação Civil, a ANAC, a empresário respeitado no Campo de Marte.
Com diploma de bacharel em aviação civil pela Universidade Anhembi-Morumbi, casou-se, aceitou o convite para fazer parte de uma loja maçônica e comprou um apartamento. Tudo isso com apenas 26 anos de idade.
No dia 24 de novembro, o sonho de Alexandre desmoronou. Ele foi preso depois de transportar quase meia tonelada de pasta base de cocaína a bordo do helicóptero que pertencia ao senador Zezé Perrella e seu filho, o deputado Gustavo Perrella.
“Estou acabado. Minha empresa quebrou e não consigo emprego. Quem vai entregar helicóptero para um piloto que foi preso com 445 quilos de cocaína?”, me pergunta Alexandre, na primeira entrevista que concedeu depois que foi solto pela Justiça Federal no Espírito Santo, após passar três meses e meio na cadeia.
Ao deixar a prisão, no dia 8 de abril, Alexandre voltou para São Paulo e, no dia 10 de abril, foi para o Campo de Marte, onde se reuniu com alunos da escola, em busca de uma solução para as horas de voo pagas e não entregues.
“A escola funcionava assim: eu vendia adiantado as horas de voo e os alunos me davam cheques pré-datados. Agora eu estou entregando os três helicópteros que restaram para outra escola dar as aulas”, afirma.
A reunião com os alunos no Campo de Marte durou pouco. A polícia foi chamada e quatro homens armados de fuzil expulsaram Alexandre dali. “Sou hoje um pária”, diz. “Tenho muita vergonha”.
Além do flagrante no Espírito Santo, Alexandre foi citado como participante de um plano mirabolante para resgatar chefes do PCC presos em São Paulo.
“É mentira”, diz. “Foi para desmentir esta história sem pé nem cabeça que eu aceitei dar esta entrevista. Respondo pelos meus erros, mas não aceito que coloquem na minha conta o que eu não fiz”.
A entrevista com Alexandre, que durou quatro horas e meia, aconteceu no escritório do advogado dele, no bairro de Pirituba, aonde, com trânsito bom, se chega em 40 minutos de carro, a partir do centro da cidade.
Alexandre se atrasou. Ao chegar, cumprimentou o advogado com um beijo no rosto. Vestia calça jeans e camisa azul com três pequenas letras bordadas na altura do bolso – CKJ (as iniciais deles são AJOJ).
Usava um grande relógio no pulso esquerdo, um vistoso anel na mão direita, com uma pequena cruz vermelha em relevo, e uma corrente no pescoço. Tudo dourado.
Com a cabeça raspada à navalha e os acessórios chamativos, fez lembrar uma celebridade do funk ostentação.
Alexandre diz que só soube que transportava cocaína depois que chegou a Afonso Cláudio, quando dois homens que aguardavam o helicóptero abriram as bolsas pretas onde estava a droga, e retiraram tabletes.
“Eu fui contratado para trazer eletrônicos e medicamentos veterinários do Paraguai. Para mim, era contrabando de mercadorias, não tráfico de drogas”, afirma.
Nas mensagens encontradas pela Polícia Federal nos telefones móveis usados por Alexandre, a história é diferente.
Ele usa um BlackBerry e conversa com o piloto do senador Perrella, Rogério Almeida Antunes, por mensagens, possivelmente imaginando que a criptografia do programa impedia o grampo policial.
No início, Alexandre usa o codinome Fire I e diz a Rogério que, se ele fizer o transporte, “nunca mais vai precisar de $ e nem banca”. Banca é, segundo a Polícia Federal, um esquema ilícito de aprovação de pilotos na ANAC.
Rogério, que usa o apelido Canhão do Asfalto, pergunta:
– É açúcar? Farinha de trigo? KKKKKK.
Alguns dias depois, Alexandre volta a falar com Rogério, mas já usa outro aparelho e outro codinome, este mais curioso. Ele se apresenta como Marcelo Rezende, apresentador da Record.
Na mensagem, avisa:
– Oi, Barão. Vamos ganhar dinheiro.
Rogério, o Canhão do Asfalto, acha engraçado:
– Ahahahaha, fala Rezende… Corta pra Marte, corta pra São Paulo [uma referência aos bordões de Rezende].
Alexandre diz a Rogério que vai cobrar R$ 250 mil pelo transporte e garante que o piloto do senador Zezé ficará com aproximadamente R$ 150 mil, para cobrir as despesas com hora de voo, mais 50 mil por dia de trabalho.
Na entrevista, Alexandre diz que o pagamento seria feito por Harley, um codinome que aparece na transcrição das mensagens, mas ele diz não saber muito mais do que isso. Teria uma loja na 25 de Março, mas ele não sabe onde fica.
Confrontado com a fragilidade da informação, reconhece que é difícil mesmo acreditar na sua história. “Mas é a verdade.” Diz que foi usado e admite. “Tenho medo de morrer”.
Sobre o que pode contar, Alexandre dá detalhes. Diz que o voo do helicoca saiu de São Paulo sexta-feira à tarde, foi para o aeroporto de Avaré, onde pernoitou.
Estive neste aeroporto, que é administrado pelo governo do Estado de São Paulo. Soube que o avião chegou perto do por do sol, ficou ali, enquanto os dois tripulantes foram levados de táxi para o hotel Vila Verde.
Na manhã seguinte, reabastecido, saíram. Num aeroporto privado, em Porecatu, no Paraná, fizeram escala para reabastecimento e partiram para a região da fronteira.
O GPS indica que pousaram em Pedro Juan Caballero, do lado paraguaio. Alexandre diz que foi em Ponta Porã, do lado brasileiro. Não é apenas um detalhe.
Se assumir que esteve no Paraguai, Alexandre estará confessando participação no tráfico internacional de entorpecentes, com pena mais severa.
Da fronteira, os dois voltaram para São Paulo, com duas paradas, uma em Porecatu e outra em Avaré, onde permitiram que um funcionário fizesse o reabastecimento, apesar do helicóptero estar abarrotado de sacolas com cocaína.
De Avaré, foram para Jarinu, na Grande São Paulo, num pouso que, apesar de muito importante, ainda não teve a investigação aprofundada pela Polícia Federal.
“Deixamos a droga num hotel fazenda, com três homens num jipe verde”. O hotel fazenda é o Parque Danape, um dos maiores da região, e um dos proprietários tem de fato um jipe verde.
Com o helicóptero vazio, foram para o Campo de Marte, onde o helicóptero pernoitou. Os dois foram para o apartamento de Alexandre.
Neste apartamento, Rogério trocou mensagem com um primo e contou que transportava “coca”.
No dia seguinte, Alexandre diz que voltou ao hotel fazenda, onde a droga foi novamente colocada no helicóptero. Ele conta que havia três sacolas a menos, coisa de 50 quilos de cocaína que teriam ficado nesta escala.
Numa investigação preliminar, agentes da Polícia Federal estiveram nas imediações do hotel sem se identificar e produziram uma informação técnica que foi juntada ao inquérito.
No relatório da investigação, a Polícia Federal recomenda outras diligências e, entre parênteses, registra que ali podem estar os proprietários da droga. É um registro curto, até agora sem desdobramento.
Do hotel em Jarinu, o helicóptero foi para Divinópolis, em Minas Gerais, onde houve novo reabastecimento, com a droga no bagageiro e no banco traseiro da aeronave.
Em seguida, para Afonso Cláudio, onde aconteceu a apreensão.
O trajeto relatado por Alexandre tem algumas diferenças em relação ao definido no inquérito da PF feito com base nos registros do GPS.
Por esses registros, o helicóptero teria parado em Santa Cruz do Rio Pardo, a 60 quilômetros de Avaré, no aeroporto de Jundiaí e em Sabarazinho, no interior de Minas.
“Não paramos nestes lugares”, afirma Alexandre. Eu estive na zona rural de Santa Cruz do Rio Pardo, onde, em outros tempos, foi encontrada droga jogada do alto do avião.
No ponto informado pelo GPS há um pasto, com muitos vizinhos. Ninguém nunca viu ou ouviu helicóptero por ali.
“Às vezes, o helicóptero faz um 360 no ar, num movimento de espera. O GPS indica um ponto parado, mas não houve pouso. Ficamos no ar. É uma manobra para esperar o mau tempo passar”, diz o piloto. “Acho que foi isso que aconteceu”.
Por serem pilotos, Alexandre e Rogério se destacam no resultado da investigação, mas a elucidação deste caso talvez dependa mais de outras buscas.
O hotel em Jarinu é uma boa pista, como admite a polícia. Outra trilha ainda não percorrida é seguir o rastro de Robson Ferreira Dias, vulgo Vovô, qualificado no inquérito como comerciante em Araruama no Rio de Janeiro.
Robson era o homem que carregava o dinheiro e aguardava o helicóptero em Afonso Cláudio, na companhia de Everaldo Lopes Souza, um funcionário braçal.
O quinto indiciado neste caso de tráfico é o empresário Élio Rodrigues, do Espírito Santo.
Élio é dono da propriedade programada para receber o helicóptero e tem também uma empresa em Itapemirim, a Arte Rochas, que trabalha com mármore, um tipo de matéria prima usada para esconder cocaína em outros casos descobertos no Espírito Santo.
Élio prestou depoimento duas vezes na Polícia Federal. Na primeira, negou elo com o carioca Robson. Mas ele surgiu através da descoberta de que, em 2013, os dois se associaram num negócio de futebol profissional.
Élio e Robson levaram do Rio de Janeiro para Vitória um jogador de futebol de nome David. O atleta ficou hospedado numa quitinete de Élio, enquanto treinava no Desportiva, um dos principais times de futebol profissional do Espírito Santo.
Nas conversas com outros membros da quadrilha, Robson, que tem 56 anos, usa o codinome Vovô. Ele se reporta a dois homens que parecem superiores na hierarquia, Giga e Frajola, de quem recebe ordens.
Se a PF descobrir os nomes por trás desses apelidos, estará solucionado o mistério do Helicoca, que vai muito além de qualquer acrobacia de Alexandre.

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